COLUNAS

Socorro, meu filho homossexual!

Dra. Sandra Regina

Como os pais estão encarando esta questão?  

Bem, vamos combinar, essa não é nem de longe a melhor notícia do dia. É um desafio maior do que alguns pensam poder agüentar, mas se vencido, pode criar vínculos mais fortes.  

Por mais liberais que sejam os pais, ninguém quer ter um filho ou filha homossexual. O impacto da notícia é sempre doloroso e vem acompanhado de vergonha, tristeza e culpa. 

Muitas vezes a raiva está presente. Quem não sonhou com a casa cheia de netos? O que vou falar para a família, os amigos? É muito choro e cara feia. E sempre a primeira pergunta é: “onde foi que eu errei”? 

Passado o choque inicial, alguns acabam percebendo que isso não depende de educação, e nem mesmo é uma escolha, pois se alguém pudesse escolher certamente pegaria o caminho mais fácil, o da heterossexualidade, sem discriminações e estereótipos! 

Sentada na minha cadeira de médica, terapeuta e confidente já ouvi de tudo. Uma mãe jura que o “problema” foi desencadeado pela separação dela, pai ausente, mãe autoritária e possessiva (assumiu!), “deu nisso”. Mas, embora anos atrás a psicologia falasse exatamente isso, hoje sabemos que a história é outra.  

Um homem bonito, na casa dos cinqüenta, chorou a consulta toda, um a só não, várias consultas.  Choro de prato, com soluços e tudo. Encontrou revistas de homens nus na mesa do filho, já com quase 20 anos. O “menino” confessou que era homossexual. Ele quase morreu. Há anos tem um grupo de amigos que toda semana fazem farra, saem de barco, alugam casas e até viajam com mulheres. Em quase trinta anos de casamento, nunca foi fiel. Mas desde que descobriu a “doença’ do filho está exemplar – agora só mesmo com a esposa, fez promessa e já está pagando, tem “fé que ele ficará bom”.  Levou-o no psiquiatra e depois trouxe pra mim. “Ele é um menino, está confuso, eu errei”.  Aceitei atender o “menino” pois ele certamente precisa de apoio, mas a condição foi que o pai se tratasse também. 

E não pense que o homossexualismo feminino é melhor aceito, uma mãe, com menos de 40, quando a filha de 16 anos disse estar apaixonada por outra mulher a surrou até cansar!  

No momento em que resolve se revelar, mais do que nunca os filhos precisam dos pais, mas infelizmente, a maioria deles não está capacitada a dar o apoio necessário.

 Se você é homossexual, por favor entenda, seus pais têm o direito de pedir um tempo para aprender a lidar com esses sentimentos confusos dentro deles. É um misto de frustração, raiva, culpa, tristeza... um monte de coisas que eles próprios não são capazes de entender.

  

Assim como foi confuso, e talvez ainda seja, pra você entender seus desejos e sentimentos, imagine para eles que estão de fora da situação, e de repente são comunicados que as coisas não estão acontecendo como eles esperavam?

 

Você precisou de um tempo para entender o que acontecia e chegou a hora em que resolveu se mostrar. Dê esse tempo de assimilação a eles também.  

Se você é pai ou mãe atente em primeiro lugar para o que realmente é importante: o amor e a vida. Uma pesquisa americana mostra que o índice de suicídio é três vezes maior em adolescentes homossexuais. Seu filho ou filha percorreu um árduo caminho até ter coragem para falar com você sobre isso. Ele quer, merece e precisa ser amado. Você que deu a ele a própria vida, não negue esse alimento fundamental à sobrevivência que é o amor. A relação de vocês será fortalecida depois desta turbulência.  

Se quiser saber o que aconteceu com as pessoas que citei acima, posso contar. A mãe que se sentia culpada entrou em terapia e já não se culpa tanto,  mas  está difícil de assumir filha lésbica. Consegue dar carinho, mas não fala mais no assunto, é como se nunca tivesse sido dito. A namorada da filha é uma coleginha e ponto. 

O pai desesperado que pensava estar sendo punido descobriu que o filho era muito homem para peitá-lo, coisa que ninguém da família jamais ousara fazer. Todos obedeciam, concordando ou não: esposa, irmãos, irmãs, cunhados, sobrinhos... Ninguém ousava questionar sua palavra. Descobriu que o filho foi um grande presente em sua vida e também um mestre que lhe ensinou a buscar o que desejava, ao invés de ir com a maré. Seu filho tinha tudo para se suicidar, se tornar um drogado, casar com um mulher para manter as aparências e ficar minando ao auto-estima dela enquanto tinha seus casos por fora com homens, ou mesmo passar a vida sentindo-se a pior das pessoas, errado, se punindo, se culpando, tentando ser quem não é. Mas o menino era um homem. Inseguro ainda, mas forte em seu desejo. O pai, por amor, pode ver o filho como pessoa e aceitar essa escolha de “sair do armário” e mostrar-se ao mundo como é. Percebeu, que ele próprio sempre foi o que a sociedade queria que fosse. Saiu com mulheres muitas vezes sem querer, só pra mostrar que era homem – “não podia negar fogo, né?” Perdeu um grande amor por não ter coragem de separar da esposa, uma mulher especial, que ele admira, mas não ama. Um casamento vazio, de aparências. Aprendeu com o filho gay a respeitar os próprios desejos. Hoje está separado e namorando uma mulher que  realmente deseja.

Nem sempre encontramos um happy end com esses. Tenho que reconhecer que esse pai é um homem corajoso: teve a coragem de olhar de frente para a situação, de olhar para si e para o filho amorosamente. Se despiu dos conceitos enferrujados e buscou as próprias verdades. Estava disposto a mudar e mudou! Um linda transformação.  

A mulher que espancou a filha? Ainda acha que é um desvio de conduta, mas não quer saber do assunto. O que os olhos não vêem, coração não sente, não é assim que se diz?  

Bem, muita coisa ainda vem por aí. O homossexualismo sempre existiu, mas agora, as pessoas estão assumindo suas identidades e os pais que sabiam, mas fingiam não saber estão tendo que se posicionar. Se o amor vencer o preconceito, o resultado, apesar da dor, será sempre positivo. 

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